Notícias‎ > ‎

"Nova Evangelização" - Um desafio pastoral

Publicado a 23/09/2010, 10:19 por Panda Reguila

Patriarca de Lisboa quer um novo vigor da Nova Evangelização assente na fidelidade cristã.

O Cardeal-Patriarca de Lisboa quer um novo vigor da Nova Evangelização assente na fidelidade e na santidade daqueles que desempenham qualquer missão dentro da Igreja. Este desejo é manifestado por D. José da Cruz Policarpo na Carta Pastoral dirigida à Igreja de Lisboa, publicada esta semana, intitulada ‘«Nova Evangelização», um desafio pastoral’.

Nesta carta, em 16 pontos, o Cardeal-Patriarca traça algumas linhas de orientação que possam levar ao que chama de um novo vigor da nova evangelização, assinalando o modo como se tem sentido interpelado por este desafio pastoral, já desde o pontificado do Papa João Paulo II.

Esta preocupação levou, por isso, a dirigir esta Carta Pastoral à Igreja de Lisboa que vem ao encontro das recentes opções tomadas pelo Papa Bento XVI, na criação do novo Conselho Pontifício para a Nova Evangelização. Por isso mesmo, afirma D. José Policarpo: “Tudo o que fizermos, será em comunhão com o Santo Padre. Esperamos deste Conselho Pontifício desafios, sugestões de caminhos, força dinamizadora”.
in Voz da Verdade



CARTA PASTORAL:

“NOVA EVANGELIZAÇÃO” - UM DESAFIO PASTORAL

Introdução

1. O Santo Padre Bento XVI decidiu criar, no âmbito da Cúria Romana, uma nova estrutura, sob a forma de “Conselho Pontifício”, para dinamizar em toda a Igreja, mas sobretudo na Europa, o desafio de uma “nova evangelização”. Eis como o Papa o anunciou: “Decidi criar um novo organismo, na forma de Conselho Pontifício, com a tarefa principal de promover a renovada evangelização nos países onde já ressoou o primeiro anúncio da fé e estão presentes Igrejas de antiga fundação, mas que estão a viver uma progressiva secularização da sociedade e uma espécie de eclipse do sentido de Deus” .
Esta Carta Pastoral já tinha começado a ser pensada antes deste anúncio, pois desde que o Papa João Paulo II lançou o desafio de uma nova evangelização que o tema me tem interpelado e me interrogo como traduzi-lo no dinamismo pastoral da nossa diocese, transversal a toda a realidade diocesana e a todas as opções e estruturas pastorais. A criação deste “Conselho Pontifício”, mostra a decisão do Santo Padre de incluir esse dinamismo no seu próprio ministério, pois todos os serviços da Cúria Romana são apoio ao ministério do Papa, Sucessor de Pedro e Pastor Universal. Assim, tudo o que fizermos, será em comunhão com o Santo Padre. Esperamos deste “Conselho Pontifício” desafios, sugestões de caminhos, força dinamizadora. A minha intuição pastoral ganha densidade nesta sintonia de preocupações pastorais do Papa que lhe dá a dimensão de grande desafio pastoral para toda a Igreja.

A Nova Evangelização
2. Não me passou despercebido o facto de Bento XVI não utilizar a expressão “nova evangelização” falando antes de “renovada evangelização”. Não é a primeira vez que ele parece evitar a expressão, talvez para fugir ao perigo de mais um “tema da moda”, de que toda a gente fala, sem aceitar enfrentar pastoralmente os desafios sobrenaturais que o tema inclui. De facto, a “nova evangelização”, não é nova no sentido de uma descoberta; dimensão sobrenatural da evangelização, essa sempre existiu na Igreja, desde a época apostólica até aos nossos dias. Ela é o anúncio do amor infinito de Deus por todos os homens, expresso para nós no amor de Jesus Cristo, que nos ama como homem, com o amor infinito de Deus. Os cristãos podem fazer esse anúncio porque, unidos a Cristo, procuram mergulhar a sua vida nessa voragem do amor divino que tudo renova e transforma.

3. O desafio de uma “nova evangelização” é lançado por João Paulo II aos Bispos da América Latina. Está-se a celebrar o quinto centenário da evangelização da América Latina, pelos espanhóis e pelos portugueses. E perante a evolução cultural das Igrejas do continente, o Papa lança aos Bispos esse desafio. Fala de um novo compromisso missionário, “não certamente de uma re-evangelização, mas de uma nova evangelização, nova no seu ardor, nos seus métodos e nas suas expressões” .
Parece-me que a expressão usada por João Paulo II inclui uma proposta e uma denúncia. A proposta é a de que a evangelização retome o ardor sobrenatural e a força carismática que fez dela uma expressão do amor por Jesus Cristo e o anúncio do amor de Deus. Trata-se de anunciar que, na nossa sociedade contemporânea, todos os evangelizadores têm de estar dinamizados pela generosidade da fidelidade e a surpresa da santidade.
Mas inclui também uma denúncia: a evangelização nas Igrejas estabelecidas corre o risco de se tornar um conjunto de actividades programadas, mas em que os seus agentes não estão transformados pela fidelidade a Jesus Cristo, no amor. Sem esse amor novo que é infundido em nós pelo Espírito Santo, não há verdadeira evangelização. Ela é sempre o anúncio do amor a que nos leva o amor-caridade.
Esta “denúncia” já Paulo VI a fez na introdução à “Evangelii Nuntiandi”. Na consciência de que a evangelização é sempre “fidelidade a uma mensagem de que nós somos servidores”, lança algumas perguntas:

  • “O que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa-Nova, susceptível de impressionar profundamente a consciência dos homens”?
  • “Até que ponto e como é que essa força evangélica está em condições de transformar verdadeiramente o homem deste nosso século”?
  • “Quais os métodos que hão-de ser seguidos para proclamar o Evangelho de molde a que a sua potência possa ser eficaz”?

 

Para Paulo VI, estas questões resumem-se numa só: depois do Concílio, que foi para a Igreja, uma hora de Deus, “encontrar-se-á a Igreja mais apta para anunciar o Evangelho e para o inserir no coração dos homens, com convicção, liberdade de espírito e eficácia?” Torna-se claro que João Paulo II, ao caracterizar a “nova evangelização”, tem como pano de fundo estas questões levantadas por Paulo VI. Por isso fala de “um novo ardor, de novos métodos e novas expressões”.

“Denúncia” da actual estrutura pastoral da Igreja?
4. Temos a sensação que estas interpelações, vindas dos Papas e das Assembleias Sinodais, tiveram efeitos limitados na maneira como a Igreja evangeliza. O peso das “rotinas” na acção pastoral de Igrejas estruturadas é grande, deu-se prioridade à racionalidade na organização da pastoral, a partir da análise da sociedade e da compreensão da mensagem, o que não garante automaticamente esse ardor sobrenatural dos evangelizadores. A própria programação pastoral está marcada por esta racionalidade. O Cardeal Walter Kasper escreveu recentemente: nesse quadro, das Igrejas estabelecidas, o novo rosto da Igreja tarda em manifestar-se. Os agentes de pastoral, os melhores, continuam generosamente a fazer, o melhor que podem, o que sempre fizeram, mas isso não chega .
No caso da nossa Igreja de Lisboa, as opções pastorais estão acertadas, os objectivos traçados nos programas de pastoral são lógicos e coerentes e, é preciso reconhecê-lo, muitos dos nossos agentes de pastoral estão dinamizados pela fé. Mas é grande o peso das estruturas, quer na organização diocesana, nas paróquias, nas associações de fiéis. A racionalidade dessas organizações pode levar a que os seus agentes sejam seus executores generosos, sem o ardor da fidelidade a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. O vigor da “nova evangelização” tem de ser transversal a tudo isso, gerando as transformações exigidas pelo ardor da fidelidade cristã e pela dimensão sobrenatural da evangelização. Só o vigor da “nova evangelização” pode provocar as mudanças necessárias.

Um novo vigor
5. É uma das qualidades da nova evangelização apontadas por João Paulo II. Em que consiste esse novo vigor? É a força da fé vivida, como amor a Jesus Cristo, com quem nos identificámos no baptismo. Evangelizar é participar na urgência de Jesus Cristo em anunciar o Reino de Deus, expressão do seu amor salvífico. Cristo continua a ser o primeiro e o principal evangelizador , missão que Ele continua a realizar através dos seus discípulos, que participam da sua Paixão pelo anúncio do Reino de Deus. É por isso que Paulo exclama: “Ai de mim se não evangelizar” (1Cor, 9,16). Para o cristão, evangelizar é expressão do seu amor a Jesus Cristo. Ela é sempre uma expressão de amor, porque só o amor converte e brota da relação com Jesus Cristo numa comunhão de amor. Evangelizar é sempre anunciar o amor de Deus, em Jesus Cristo.
Como afirmei no encerramento do recente Congresso Missionário Nacional em Fátima, “Toda a missão, na Igreja, se resume a isso: anunciar o amor infinito com que Deus ama todos os homens e que exprime, de forma total e radical, em Jesus Cristo e no amor com que nos amou, ao dar a vida por nós. A missão é o anúncio desse amor, procura levar todos os homens a sentirem-se amados: amados porque perdoados; amados porque convidados para novos horizontes de liberdade; amados porque sentiram um sentido novo na vida, um novo horizonte de esperança. Ao sentirem-se amados, os seus corações abrem-se para o amor a Deus e aos irmãos.
Mas a Igreja só pode anunciar o amor, amando e deixando-se amar. Ela é o fruto fecundo do infinito amor de Deus que a ama em Jesus Cristo. E ao mergulhar nesse amor, ela abraça o mundo com o amor de Jesus Cristo, porque ela é o sacramento da salvação, realizada pelo amor de Cristo. Evangelizar é levar os homens a sentirem a força transformadora do amor de Cristo na Cruz, e os homens sentirão a força desse abraço se se sentirem amados pela Igreja.
Evangelizar não é um programa, uma atitude de estratégia proselitista, é uma loucura de amor. Só o amor fará a Igreja não desistir de anunciar Jesus Cristo, em todos os tempos e circunstâncias e a abrirá às surpreendentes maravilhas que só o amor de Deus pode realizar” .
Isto exige que todos os evangelizadores cultivem, na fidelidade, esta relação amorosa com Cristo. Já S. Gregório de Nissa afirmava: “Cristo é a nossa paz, que fez de dois um só Povo. Sabendo que Cristo é a nossa paz, mostraremos a autenticidade do nosso nome de cristãos, se por meio daquela paz que está em nós manifestarmos a Cristo com a nossa vida” .
Isto exige que todos os evangelizadores busquem a santidade, na fidelidade a Jesus Cristo, manifestada no concreto das suas vidas, do seu estado, da sua vocação concreta, das circunstâncias em que vivem. A formação que a Igreja deve proporcionar a estes evangelizadores deve procurar, sobretudo, esta busca da fidelidade cristã e não apenas uma preparação técnica e cultural para a missão evangelizadora. A “nova evangelização” exige um grande movimento de espiritualidade.

 

As principais expressões desta fidelidade evangélica
6. Já vimos que a evangelização exige fidelidade pessoal a Jesus Cristo, vivida em Igreja, acolhendo os dons que Ele próprio nos proporciona. Viver com Jesus Cristo é estar continuamente em acção de graças pelas expressões do seu amor, o primeiro dos quais é a sua Palavra.

* Acolher o Evangelho como Palavra de Jesus, que Ele nos diz agora e na qual se nos diz, desejando permanecer em nós. Uma leiga do nosso tempo, totalmente devorada pelo zelo da evangelização, fala assim do acolhimento do Evangelho: “O Evangelho é o livro da vida do Senhor. Está feito para se tornar o livro da nossa vida. Não foi feito para ser compreendido, mas para ser abordado como a porta do mistério. Não está feito para ser lido, mas para ser recebido em nós. Cada uma das suas palavras é espírito e vida. Ágeis e livres, só esperam a avidez da nossa alma para penetrar nela. Vivas, são elas próprias como o fermento inicial que penetrará na nossa “massa” e a fará fermentar num novo modo de vida. (…) As palavras do Evangelho são milagrosas. Não nos transformam porque nós não lhes pedimos para nos transformarem. Mas, em cada frase de Jesus, em cada um dos seus exemplos, permanece a força fulminante que curava, purificava, ressuscitava. Na condição de sermos, em relação a Ele, como o paralítico ou o centurião: agir imediatamente, numa obediência total”.
Absorver e interiorizar as palavras do Evangelho é mais importante do que tentar compreendê-las. “O Evangelho de Jesus tem passagens quase totalmente misteriosas. Não sabemos como passá-las para a nossa vida. Mas há outras que são impiedosamente límpidas. É uma fidelidade cândida ao que nós compreendemos que nos levará a compreender o que permanece misterioso. Diante dessas palavras misteriosas, só nos é pedido que obedeçamos e não serão os raciocínios que nos ajudarão. O que nos ajudará é levar, “guardar” em nós, no calor da nossa fé e da nossa esperança, a palavra a que queremos obedecer. Ele estabelecerá entre ela e a nossa vontade como que um pacto de vida” .
Há muita coisa a rever sobre o lugar da Palavra de Deus, sobretudo da Palavra de Jesus, na formação espiritual dos evangelizadores, desde a Liturgia, à proclamação da Palavra, ao lugar da Palavra na oração pessoal. Só entrarão na dinâmica da “nova evangelização” evangelizadores habitados e devorados pela Palavra de Deus.

 

* A oração como fonte da fé, da esperança e da caridade
7. “A fé e a esperança é a oração que as dá. Sem rezar não podemos amar” . Progredir na oração é fundamental para sentir o “novo ardor” da fé e da caridade, que faz do anúncio do Evangelho uma “nova evangelização”. Mas o que é rezar? “Rezar é restabelecer entre Deus e nós relações num sentido normal. É converter, voltar o nosso espírito, o nosso coração, a nossa vontade para o lado de Deus que, sem cessar, é para nós Criador e Pai. A oração já é amor, ela exige o amor, acolhe o amor” .
Só na oração se descobre a relação entre a fé, a esperança e a caridade. Capta-se esta união das três virtudes na relação privilegiada com Jesus Cristo: acreditar n’Ele é amá-l’O e esperar a plena união com Ele. Só Cristo nos leva ao Pai e vai fazendo desabrochar no horizonte do nosso coração o desejo da vida eterna. O cristão deve evangelizar com o amor de Jesus Cristo e, ao anunciar o amor, proclama, talvez sem o saber, o amor entre as pessoas divinas que se vão manifestando na sua individualidade de pessoas distintas de quem a união de amor faz um só Deus. Nos evangelizadores a relação com Deus tem de ser, prioritariamente, uma relação com Jesus Cristo.
É nessa relação intensa com Cristo que o crente interioriza a sua Palavra. A oração vive da Palavra, é conduzida por ela e permite que a Palavra de Cristo fique em nós, seja nossa, faça parte da nossa interioridade, continuando a ser a Palavra de Cristo.
O Santo Padre deu, recentemente, como exemplo dessa interiorização da Palavra de Jesus na oração do “Pai Nosso”, ensinado por Jesus aos discípulos, comunicando-lhes a sua própria experiência de oração (cf. Mt. 6,9-13; Lc. 11,2-4). Diz o Papa: “Estamos diante das primeiras palavras da Sagrada Escritura que aprendemos desde crianças. Elas imprimem-se na memória, plasmando a nossa vida, acompanham-nos até ao último respiro. Elas revelam que não somos já, de modo completo, filhos de Deus, que no-lo devemos tornar e sê-lo cada vez mais, mediante a nossa comunhão sempre mais profunda com Jesus. Ser filho torna-se o equivalente a seguir Cristo” .
Esta interiorização da Palavra de Deus, através da oração, acontece com outras preces que aprendemos em criança como “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo” (cf. Lc. 1,28). Este é o ritmo de toda a oração litúrgica quando é celebrada, não apenas como rito, mas como encontro profundo com Cristo e, por Ele, com a Santíssima Trindade.
Esta interiorização das palavras de Jesus, quando ensina os discípulos a rezar, abre-nos à relação da oração com o concreto da vida dos homens. A oração torna-se, assim, uma experiência forte do mistério da Encarnação. Ouçamos o Santo Padre: “esta oração acolhe e expressa também as necessidades humanas materiais e espirituais: «Dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoai-nos os nossos pecados» (Lc. 11,3-4). E precisamente por causa das necessidades e das dificuldades de cada dia, Jesus exorta com vigor: «Digo-vos, pois: Pedi e dar-se-vos-á; quem procura encontra e ao que bate, abrir-se-á» (Lc. 11,9-10). Não é um pedir para satisfazer as próprias vontades, pelo contrário, para manter viva a amizade com Deus, o qual – diz sempre o Evangelho – «dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem» (Lc. 11,13). Experimentaram-no os antigos «padres do deserto» e os contemplativos de todos os tempos, que se tornaram, pela oração, amigos de Deus” .
Se toda a nossa vida está em Deus, por Jesus Cristo, o seu realismo concreto inspira a forma de rezar, fazendo-nos descobrir que todas as expressões da vida podem ser louvor de Deus, fazer parte desse convívio íntimo, no amor. Madeleine Delbrêl, escreveu a este respeito: “Mas aquele que deve rezar, que deve oferecer o seu ser à força interior do Espírito, que diz Pai Nosso, é um homem com tal temperamento, com determinadas circunstâncias de vida, nascido numa determinada época, no meio de um determinado grupo humano, carregado com tais tentações. Habite uma casa grande ou um quarto super-povoado; trabalha no silêncio ou no tumulto; deve lutar contra a solidão ou contra a multidão. É de tudo isso que deve brotar a sua maneira de rezar, a da manhã ou a da noite, a de hoje ou de amanhã, a da juventude ou a da idade madura e da velhice. Mesmo a oração de louvor de um beneditino será modificada por uma quantidade de factores concretos se ele quiser fazer da sua oração um meio e não fazer dela um fim falso” .
Este realismo da oração só não leva ao individualismo porque toda a oração nos faz mergulhar no mistério da Igreja, o verdadeiro sujeito orante. Bento XVI diz a respeito do Pai Nosso: Todas as vezes que recitamos o Pai Nosso, a nossa voz entrelaça-se com a da Igreja, porque quem reza nunca está sozinho. Cada fiel deverá procurar e poderá encontrar na verdade e na riqueza da oração cristã, ensinada pela Igreja, o próprio caminho, o seu modo de oração… portanto deixar-se-á conduzir… pelo Espírito Santo, o qual o guia, através de Cristo, para o Pai” .

 

* A caridade vivida e experimentada no amor dos irmãos
8. A evangelização tem de se tornar na expressão do amor de Jesus Cristo por todos os homens, do nosso amor a Cristo, a Quem amamos, amando os irmãos como Ele os ama. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo. 15,12). Esta experiência da caridade, no amor dos irmãos, é o mais maravilhoso fruto da acção do Espírito Santo em nós. Mas aponta-nos também o principal risco que corremos nas nossas expressões do amor fraterno: não amar como Jesus nos ama, mas amar à moda humana. “O amor humano, porque é amor, é uma realidade maravilhosa. Os descrentes podem amar os outros com um amor magnífico. Mas nós, não é a esse amor que fomos chamados. Não é o nosso amor que temos para dar, é o amor de Deus. O amor de Deus que é uma Pessoa Divina, que é o dom de Deus a nós, mas que permanece um dom, que deve, por assim dizer, atravessar-nos, trespassar-nos para ir para além de nós, para ir para os outros” .
Esta perspectiva é decisiva, por exemplo, na vivência do matrimónio como caminho de santidade e na fecundidade evangelizadora das pessoas casadas. Também aqui a oração tem um papel decisivo. “É na oração, e só na oração, que Cristo se revelará a nós em cada um dos outros, de uma forma cada vez mais profunda e clarividente. É na oração que poderemos pedir o dom a cada um, sem o que não haverá amor; é através dela que a nossa esperança crescerá, na medida e no número daqueles que nós encontraremos e na profundidade das suas necessidades” .

 

Evangelização e conversão
9. O anúncio do Evangelho convida à conversão e só os convertidos podem entrar no dinamismo da “nova evangelização”. A oração é o caminho da conversão. É ela que abre o horizonte do Reino de Deus, alimenta o desejo de uma vida nova, torna-se a fonte daquela força necessária para a mudança de vida. Recordemos as palavras de Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: “Este reino e esta salvação, palavras-chave da evangelização de Jesus Cristo, todos os homens os podem receber como graça e misericórdia; e no entanto, cada um dos homens deve conquistá-los pela força, os violentos apoderam-se dele, diz o Senhor, pelo trabalho e pelo sofrimento, por uma vida em conformidade com o Evangelho, pela renúncia e pela cruz, enfim pelo espírito das bem-aventuranças. Mas, antes de mais nada, cada um dos homens os conquistará mediante uma total transformação do seu interior que o Evangelho designa com a palavra "metanoia", uma conversão radical, uma modificação profunda dos modos de ver e do coração” .

A experiência da salvação, em Igreja
10. A “nova evangelização” desabrocha na experiência de Igreja, “comunidade evangelizada e evangelizadora” . A Igreja nasce do Evangelho, vive do Evangelho, anuncia o Evangelho. Paulo VI recorda, lembrando o Sínodo sobre “A Evangelização no Mundo Contemporâneo”: “Nós queremos confirmar, uma vez mais, que a tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja (…). Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade” .
A evangelização que leva à conversão faz-nos mergulhar na Igreja, comunidade que nasce do Evangelho e se identifica com Cristo. A evangelização deixa de ser uma atitude individual, para ser expressão do testemunho da Igreja, o verdadeiro sujeito da evangelização. Um sentido profundo de Igreja, de identificação com a Igreja, é essencial para que o dinamismo da “nova evangelização” possa levar à criatividade de caminhos e de expressões, sobretudo por parte dos leigos, sem se cair em visões individualistas e, por isso, dispersivas, da identidade cristã. Madeleine Delbrêl, que escolhemos como um dos exemplos de leiga empenhada nesta aventura da evangelização, dá-nos um testemunho impressionante. Depois da sua conversão, que ela apelida de violenta, 18 anos depois de procurar ser testemunha do Evangelho no mundo real da França do seu tempo, resolve ir a Roma e, em carta ao Papa, explica porquê: “Para que fosse um acto de fé e nada mais, cheguei a Roma de manhã. Fui direitinha para o túmulo de São Pedro, diante do altar onde vós celebrais a vossa Missa. Fiquei aí todo o dia e regressei a Paris à noite”. E mais à frente acrescenta: “Roma é, para mim, uma espécie de sacramento do Cristo-Igreja e parecia-me que só em Roma certas graças se pedem para a Igreja e se obtêm para ela” . Este sentido de Igreja, ancorado no ministério apostólico do Sucessor de Pedro, acompanhá-la-á toda a vida, sendo âncora segura em momentos de obscuridade.
Este “novo ardor” da “nova evangelização” levar-nos-á a descobrir a Igreja toda, em todos os seus membros, como protagonistas desse anúncio da salvação, não apenas como executores de acções programadas, mas com a ousadia da criatividade, encontrando em cada circunstância da vida dos homens, a forma concreta de anunciar o Evangelho. Só sentindo-se membro da “Igreja evangelizadora” essa ousadia da criatividade salvaguardará a unidade.

Novos métodos e expressões
11. João Paulo II ao definir a “nova evangelização”, disse que ela será nova, no “novo ardor” e em “novos métodos e expressões”.
Não pretendo aqui definir esses “novos métodos e expressões”. Seria reconduzir esse dinamismo à frieza de acções programadas. É certo que aqueles que já participam nas acções programadas da pastoral da Igreja Diocesana são chamados ao “novo ardor”, a fazerem o que fazem com o coração renovado. O dinamismo da “nova evangelização” pode trazer à pastoral programada um novo ritmo e, porventura, ser a luz que levará à sua transformação.
Esta nova metodologia aproxima-nos do desafio lançado pelo Concílio Vaticano II de ler os “sinais dos tempos”. Isso significa que, com o ardor da fé e da caridade, o cristão em contacto com a vida das pessoas e das situações, intui o momento e a forma de anunciar Jesus Cristo e o seu Evangelho. Sem esta ousadia da criatividade, a leitura dos sinais dos tempos fica reduzida a uma análise da realidade. Só a força da fé e da caridade “perscrutam” na realidade “sinais do Reino”, isto é, aberturas, que podem ser as rupturas da vida, à mensagem libertadora de Jesus Cristo.
A Igreja, nas suas estruturas, não pode ter medo desta ousadia da fé e da caridade. Conduzido pelo Espírito, cada cristão deve ter a sabedoria e a humildade de situar a verdade das suas intuições em confronto com a verdade da Igreja. Quanto maior for a ousadia da criatividade, mais se exige a humildade da obediência à Igreja.

12. Quando João Paulo II fala de “nova metodologia” tem presente a sua experiência pessoal de discernimento do caminho a seguir na experiência da oração. Diz dele o Postulador da sua Causa de Beatificação: “Em todas as situações difíceis do seu ministério, ou em momentos históricos particularmente críticos, João Paulo II entregava-se à oração para encontrar claridade em relação ao caminho a seguir”. A sua vida “foi uma síntese admirável de oração e acção. Era da oração que derivava a fecundidade do seu agir” .
A oração, como método e caminho a seguir, acentua o papel central da oração no dinamismo da nova evangelização e repropõe-nos a relação entre experiência contemplativa e discernimento pastoral. João Paulo II mostrou-nos, com a sua vivência, que a Eucaristia é o lugar dessa síntese. A preparação e a acção de graças eram, para ele, momentos fortes de contemplação e de discernimento da vontade presente do Senhor acerca da sua Igreja. A celebração era acção de Jesus Cristo, deixava-a acontecer, abandonava-se a ela. “Eu não me comovo durante a Missa, faço-a acontecer. E comovo-me antes e depois” .
Não haverá discernimento dos caminhos da “nova evangelização” sem esta centralidade da Eucaristia. Nela discernimos os caminhos da Igreja, apercebendo-nos dos caminhos que Jesus Cristo imolado escolhe hoje, em cada tempo e em cada circunstância.

Uma pedagogia para a “nova evangelização”
13. Com esta Carta Pastoral não se pretende alterar imediatamente as estruturas de pastoral da nossa Diocese. Procura-se, isso sim, despertar em todos os cristãos praticantes, sobretudo naqueles que já desempenham uma missão pastoral, esse “novo ardor” que os levará a fazer da evangelização não apenas uma tarefa programada, mas uma “paixão” que brota do amor a Jesus Cristo. Só esse “novo ardor” suscitará inovações nas estruturas pastorais e nas organizações eclesiais. Trata-se de um dinamismo transversal a todas elas, convidando-as a uma autêntica renovação sobrenatural.
É um dinamismo espiritual, mas não espiritualista, porque para ser válido, tem de ter um profundo sentido de encarnação, tendo em conta o realismo da vida dos homens, nossos irmãos e das circunstâncias da nossa sociedade. Os “espiritualismos” podem incorrer na tentação de fuga da realidade. Não há nada de mais real do que o amor de Deus pelos homens e a acção redentora de Jesus Cristo.
No implementar desta pedagogia a Diocese procurará oferecer meios, em pessoas e estruturas, que ajudem aqueles e aquelas que aderirem, a abrir-se à conversão interior e à descoberta da paixão pelo Reino de Deus.

Quem é convidado a participar
14. Esta pedagogia interpela pessoas e instituições. São convidados a participar todos os cristãos que sintam um desejo sincero de caminhar na fidelidade, à sua consagração baptismal, à vocação que escolheram, porventura à missão que lhes foi entregue. Este desejo de fidelidade corresponde, como já dissemos, à busca da santidade. Isto dirige-se aos sacerdotes, às pessoas consagradas, em famílias religiosas ou no meio do mundo, aos que escolheram o caminho do matrimónio e são chamados a aprofundar, através dele, a sua comunhão de amor com Cristo.
Este dinamismo de conversão ao amor de Jesus Cristo revela que o elemento essencial é comum em todas as vocações e que é a falta do ardor da santidade que as faz valorizar particularismos de carismas ou tradições que em nada contribuem para a unidade da Igreja, um só corpo em Cristo. Cito mais um texto de Madeleine Delbrêl, referindo-se ao sacerdote que acompanhava o seu grupo. “Pertencer ao Senhor Jesus era torná-l’O glorioso e tornar bem-aventurado aquele que Lhe pertencia. Mas pertencer-Lhe como? O padre não se preocupava muito com isso. Confiava que o Senhor se faria compreender por cada um. Desconfiava de vocações fabricadas pela mão dos homens, mesmo que fossem mãos de sacerdotes. Se o amor do Senhor Jesus estiver numa vida, Ele criará nela a vocação pessoal dessa vida”. Todos são convidados a fazer sua a convicção de Santa Teresa de Lisieux: “A minha vocação é o amor”. “Quando o Senhor Jesus se explicou, quando alguém compreendeu o que Ele queria: um casamento, um mosteiro, o sacerdócio, o celibato escolhido ou aceite, o P. Lorenzo saía então dos seus invencíveis silêncios e falava dessa vocação como se fosse a única vocação que existia no mundo. É por isso que aqueles que se tinham dado incondicionalmente ao Senhor, chegavam a uma espantosa variedade de destinos” .
É a esta variedade de “vocações” e de “missões” existentes na Igreja de hoje que se dirige este convite. Todos têm em comum o ponto de partida que será, também, o ponto de chegada: a palavra de amor que Jesus Cristo lhes dirige, convidando-as a construir a sua Igreja, como o Povo da sua predilecção, e a anunciarem a todos os homens o amor de Deus. São todos convidados a não enrijecer a definição do próprio carisma, a letra dos seus estatutos ou constituições, para se encontrarem todos na Igreja com a paixão de anunciar Jesus Cristo e o seu Reino. O que têm em comum é mais decisivo do que aquilo que os distingue.

Uma forte dimensão contemplativa
15. Não tenhamos medo da palavra. Basta ter em conta a importância decisiva da oração para aceitar que este dinamismo tem de valorizar a experiência contemplativa. A palavra foi ficando cada vez mais reservada a certas experiências institucionalizadas de vida contemplativa, sobretudo nos mosteiros. Ora a contemplação é uma componente comum e necessária a toda a busca da santidade. E esta pedagogia tem de ajudar todos os que o desejarem a descobrir a beleza e a alegria da contemplação.
Na nossa Diocese existem cinco mosteiros de religiosas contemplativas; um está em risco de fechar. Existe uma congregação diocesana, as Reparadoras da Santa Face, cujo carisma dá tanta importância à contemplação como à acção apostólica. As Auxiliares do Apostolado, vocação nascida na Bélgica no tempo do Cardeal Mercier, no início do séc. XX e aceite em Lisboa pelo Cardeal Cerejeira, são uma vocação pessoal de leigas, que através de uma busca da contemplação, pela oração, se entregam totalmente à construção da Igreja Diocesana, numa união profunda ao ministério do Bispo. Há, depois, um número difícil de contar de homens e mulheres que buscam esta experiência profunda da oração, sem estarem ligados a nenhuma estrutura que não seja a Igreja, que o Espírito conduz, mas que sofrem a falta de apoio, de pessoas e meios, para os fazer crescer na fidelidade a esse caminho a que o Senhor os chama.
Qualquer forma de vida contemplativa tem de estar ao serviço da Igreja, tem de ter a paixão da Igreja, suscitando e alimentando toda esta busca de contemplação. Só assim darão glória a Deus, pois ela consiste no triunfo do Seu Filho, Jesus Cristo e, por isso, na fidelidade e no crescimento da sua Igreja.
Esta pedagogia deve apoiar experiências contemplativas, variadas e diferenciadas, para todos os que as procurem. Contamos com o apoio dos membros das famílias contemplativas, de sacerdotes e cristãos leigos que o Senhor chame a este testemunho. Quem sabe se o Espírito do Senhor não suscitará novas formas de ser Igreja?

Como fazer?
16. Não é aqui o lugar para definir, em pormenor, a estrutura e os meios que a Diocese disponibilizará para apoiar este dinamismo. Mas podemos adiantar desde já:

* Visará uma pedagogia da fé e da oração;
        
* Valorizará o ministério sacerdotal acentuando a importância do acompanhamento espiritual personalizado;
        
* Criará condições, sobretudo através do Centro de Espiritualidade do Turcifal e da Casa do Bom Pastor, na Buraca, para que todos os que desejem fazer uma experiência de oração contemplativa o possam fazer o que poderá suscitar a presença de um grupo permanente de orientação e apoio a todas essas experiências;

* Empenhará todas as instâncias eclesiais, paróquias, famílias religiosas, movimentos e associações de fiéis que procurarão despertar os seus membros para este dinamismo. Não se limitem a dizer “isto nós já fazemos”. É preciso preparar-se para a surpresa de Deus;

* Valorizar a vivência da Liturgia. Bem celebrada, ela é o momento em que Deus chama e interpela.

17. Coloco todo este dinamismo sob uma particular protecção de Nossa Senhora. Ela continua a ensinar-nos a profundidade do silêncio em que se acolhe, em cada momento, a Palavra do Senhor, ela que aprendeu a “guardar todas as coisas no seu coração”.

 

Lisboa, 14 de Setembro de 2010, Festa da Exaltação da Santa Cruz

 

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca


Comments