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Entrevista do Assistente Nacional à Voz da Verdade

Publicado a 23/07/2011, 12:41 por Panda Reguila

Padre Rui Silva, assistente nacional do CNE: Escutismo Católico Português quer maior aproximação à Pastoral Juvenil


Passados mais de cem anos, o escutismo continua a ser actual e é ainda hoje uma escola de valores. Em entrevista à VOZ DA VERDADE, o assistente nacional do CNE, padre Rui Silva, explica como se faz escutismo católico e expressa o desejo de estreitar relações com a pastoral juvenil.


Qual a importância do escutismo para a Igreja, enquanto movimento juvenil?

Para falar do escutismo é importante dizer que existe o escutismo católico e o não católico. E considerando que existe o católico, este é inteiramente parte da Igreja. É um enorme potencial que a Igreja tem ao seu dispor, ao serviço da educação e da evangelização da juventude. Isto recorrendo ao método escutista.

O que é que distingue o escutismo católico do não católico?

O escutismo nasceu de uma forma pluri-confessional, e embora o fundador [Baden Powell] fosse anglicano, logo desde o início surgiram grupos escutistas não anglicanos. Mas vai ser através de algumas pessoas, de modo especial por um padre jesuíta, o padre Jacques Sevin, que aparece em França o que hoje chamamos de escutismo católico. Também a Itália teve um papel importante nisso, mas o padre Jacques Sevin terá sido a figura principal. Assim, o nosso escutismo católico, do Corpo Nacional de Escutas (CNE), nasce desde o princípio com essa matriz claramente católica. E isso faz toda a diferença, porque o escutismo é uma oportunidade para fazer aquilo que, enquanto cristãos, achamos que é importante. E é nesse sentido que achamos que o escutismo está ao serviço da evangelização.

Nós costumamos dizer que antes de tudo somos um grupo de católicos que utiliza o escutismo para a formação integral da juventude com base nos valores católicos. Isso nota-se, depois, na maneira como trabalhamos no escutismo, como desenvolvemos a espiritualidade, como trabalhamos as questões da mística e da simbologia [terminologia própria do escutismo], que são, no fundo, as questões religiosas que dão base a todo o sistema de progresso que desenvolvemos. Isto não significa, porém, que no escutismo católico estejamos sempre a falar de questões de fé, mas quer dizer que a fé está sempre subjacente.

Pode dizer-se que há uma espiritualidade do escuteiro?

Parece difícil dizer que há uma espiritualidade escutista. Senão vejamos alguns exemplos: há uma questão forte que marca o escutismo – a ligação com a natureza e a dimensão ecológica. Se formos a ver, nisso não fomos pioneiros. Em São Paulo, e depois mais tarde desenvolvido por São Tertuliano, fala-se do livro da natureza e do livro da Palavra. Já o Beato João Paulo II usa isso num texto que escreveu a escuteiros. Por outro lado, os franciscanos desenvolveram muito a dimensão de contemplação da criação, vendo nela o dedo de Deus. Portanto, a nossa marca aí não é exclusiva, assim como também não se confunde com outro tipo de movimentos ecológicos.

Vejamos a dimensão mariana: o escuta é filho de Nossa Senhora, a quem chamamos ‘Mãe dos escutas’. Também, como é evidente, isso não é exclusivo dos escuteiros católicos porque existe um pouco por toda a Igreja. E então em Portugal, um país com uma matriz mariana tão forte, encontramos isso em muitas associações e grupos religiosos.

Sobre a questão da prática, do aprender fazendo que marca muito o escutismo, nós dizemos isso, mas ao mesmo tempo promovemos momentos de oração, intimidade e reflexão. E o que é isso, senão uma aplicação do 'ora et labora' beneditino! Como vemos, vem exactamente na mesma linha. E muitos outros….

A pedagogia de pequenos grupos – que é do mais essencial que há no escutismo – e o nosso sistema de patrulhas temos de reconhecer que também nisso o escutismo não é pioneiro. Pode ser um pouco forçado, mas mesmo na dinâmica de Cristo com os Apóstolos vemos já o pequeno grupo a nascer. Enviados dois a dois, chamados, constituídos enquanto grupo dos doze…. e muito mais tarde, em São João Bosco, vai ser usada a dinâmica de pequenos grupos nos jogos. Portanto, vemos que todos os elementos que definem o que é o escutismo não são inovadores. Por isso, aquilo que é uma espiritualidade escutista tem um pouco de cada coisa, mas é, no fundo, a espiritualidade que cada escuteiro tiver. E aí, não há uma só.

Na exortação pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre ‘O Escutismo Católico, Escola de Educação’ (29 de Dezembro de 1995), o CNE é apontado como “Caminho para a Nova Evangelização”. Como é que o escutismo pode ser este meio de nova evangelização?

Essa é uma questão pertinente e a resposta não é fácil. Certamente que convida a uma reflexão interna por parte de todos os escuteiros, e em especial dos dirigentes. Eu penso que uma das virtudes que o movimento escutista tem é o de ser um movimento de fronteira. Está dentro da Igreja mas ao mesmo tempo consegue atrair jovens que não estão. Porque é interessante e dinâmico, porque chama para actividades que as pessoas gostam de fazer na natureza, no jogo, e até as tão faladas actividades radicais, que também há e têm sempre uma tónica pedagógica. Por isso, pelo facto de sermos um movimento de fronteira, permite que sejamos uma espécie de vanguarda. Faz com que possamos levar a Palavra da Igreja, que é a Palavra do Evangelho, a pessoas que não têm prática cristã e que não estão familiarizadas com uma comunidade. O nosso objectivo é, através do nosso exemplo, cativar outros para que vão descobrindo este tesouro que nós já conhecemos. E nesse sentido, podemos dar um grande contributo para a Nova Evangelização.

O CNE está a implementar um novo programa educativo, designado por ‘Renovação da Acção Pedagógica’ (RAP). O que traz de novo na linha da animação da fé?

Eu diria que um dos aspectos que mais foi trabalhado foi precisamente essa questão da dimensão espiritual. O novo programa educativo foi construído a partir de uma nova visão da espiritualidade. Com várias etapas, de acordo com as idades e características próprias de cada secção escutista. Estabelecemos, então, objectivos finais: assim, quando a criança ou jovem chega a determinada fase, pretendemos que a nível espiritual tenha descoberto, por exemplo, no caso dos mais pequeninos, o que é o louvor a Deus que criou tudo quanto existe. Depois, avançamos um pouco mais e falamos do compromisso que Deus estabelece com a humanidade, a sua Aliança, e nos faz pôr a caminho daquilo que Ele nos oferece. Aí temos os objectivos da Segunda Secção. Depois, já num certo grau de maturidade crescente, procuramos que os Pioneiros e Marinheiros descubram que eles próprios são pedras vivas do templo. E por isso são chamados a construir Igreja. Tudo isto para que, no final, eles vivam cristãmente dentro daquilo que eles são e fazem nas dimensões de trabalho, de namoro, de cultura, política, escola… que sejam cristãos a sério!

Este é o nosso objectivo e vai ser a partir daqui que vamos fazer jogos, actividades, acampamentos, raids…. Depois temos, ainda, alguns símbolos que nos ajudam a perceber esta realidade, tal como escolhemos os diferentes patronos, enquanto ícones do caminho que queremos percorrer. São estímulos para que os jovens queiram crescer como outros já cresceram.

Que desafios o escutismo católico enfrenta actualmente em Portugal?

Actualmente, é desafio permanecer aberto àquele que pensa de maneira diferente mas, ao mesmo tempo, convicto da proposta que tem a fazer. É assim que nós devemos situar-nos no diálogo, inclusive com escuteiros não católicos. E também no diálogo com outras instâncias religiosas, nomeadamente com a Pastoral Juvenil. Tem havido um esforço nosso, nos últimos anos, de aproximar o escutismo à Pastoral Juvenil. Sobretudo o escutismo na faixa etária correspondente à pastoral juvenil. O caminho tem de ser por aí, de comunhão que busca a unidade na diversidade de que já falava o Concílio. E se nós mantivermos a nossa matriz forte, ligados às comunidades de base e procurando sempre evangelizar no respeito pela diferença dos outros e de outras culturas, creio que estaremos a seguir no caminho certo.

Pode dizer-se que a pedagogia deixada por Baden Powell ainda é actual?

Sim, claro que é, e tem provas dadas. Por vezes, o pormenor do que ele disse tem de ser adaptado, porque é evidente que numa altura em que não havia internet, Baden Powell não podia sugerir que os escuteiros se ligassem uns aos outros através dessa rede. E quando surgiu o ‘Jamboree no Ar’, faziam-no através de outros meios, nomeadamente pelo Rádio-Amador. É necessária uma adaptação da forma, mas o conteúdo, na sua essência, é válido e com frutos dados e muitos ainda por dar.

 

Perfil

Ordenado a 3 de Setembro de 2001, o padre Rui Silva é sacerdote do Patriarcado de Lisboa, que está nomeado pela Conferência Episcopal Portuguesa como assistente nacional do CNE.

Antes dos escuteiros, foi vigário paroquial, durante três anos, de sete paróquias: Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço, Santana da Carnota, Sapataria, São Quintino, Cardosas e Arranhó. Depois, foi nomeado pároco de São Bartolomeu dos Galegos, Moledo e Reguengo Grande, no concelho da Lourinhã, onde esteve mais três anos. Em 2007, é nomeado assistente nacional do Corpo Nacional de Escutas, cargo que desempenha há dois mandatos, e mais tarde assume funções como assistente espiritual da Região Europa-Mediterrâneo da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE), um organismo internacional que procura dar o apoio de que as associações locais necessitam, e ao mesmo tempo organiza actividades pontuais de formação, de encontro e de reflexão.

A missão do Assistente Nacional

Cabe ao assistente nacional do CNE velar para que a dimensão de catolicidade e de espiritualidade esteja sempre presente no escutismo que é desenvolvido. Ao mesmo tempo, o assistente nacional é o elemento de ligação entre a Conferência Episcopal Portuguesa e o Movimento do CNE, e vice-versa. É um trabalho feito por uma equipa nacional de assistência, sendo que há ainda os assistentes nos diferentes níveis do CNE.

Apelo a maior comunhão

Padre Rui Silva: “É importante ver o escutismo católico como algo de útil e interessante para a Igreja. Quem, por ventura, alimenta algum tipo de desconfiança ou de mal-estar com o movimento, deve libertar-se de preconceitos e abrir-se à diversidade e à especificidade escutista. É importante ver o escutismo como um potencial. Localmente, os escuteiros têm de ser ajudados a fazer pontes de ligação ao nível paroquial. Faço este apelo de busca de comunhão e de aproveitamento de um potencial enorme que tem o escutismo”.

 
entrevista por Nuno Rosário Fernandes - Jornal "Voz da Verdade"
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